terça-feira, 15 de junho de 2010

Planejamento na Casa Espírita


Cezar Braga Said
Professor e Palestrante Espírita


Planejamento na Casa Espírita

?Um dos maiores obstáculos capazes de retardar a propagação da Doutrina seria a falta de unidade.
O único meio de evitá-la, senão quanto ao presente, pelo menos quanto ao futuro, é formulá-la em todas as suas partes e até nos mais mínimos detalhes, com tanta precisão e clareza, que impossível se tome qualquer interpretação divergente.?

(Allan Kardec, in Obras Póstumas, 2a parte ? Projeto ? 1868)


Todo trabalho em equipe, quando organizado, não pode prescindir do necessário planejamento. Nele, são estabelecidos os objetivos, as estratégias, os recursos a serem utilizados, a sistemática de avaliação e a definição do papel de cada componente que integra o grupo, de forma que, ao ser operacionalizado, se alcance o êxito desejado.

Planejar, mais do que uma função restrita a burocratas numa determinada empresa, é uma atitude humana, essencial à vida de relação. Antes de nos reencarnarmos fizemos um planejamento (ou fizeram para nós), tendo em vista o que pretendíamos alcançar na atual existência. Quem vai ao supermercado fazer compras, precisa ter em mente o que vai comprar, o tempo que será despendido e o dinheiro que será necessário para a aquisição dos produtos; numa competição é fundamental que uma equipe saiba como se comportar, que ela disponha de uma estratégia a fim de alcançar a vitória. Por isto, o ato de planejar é algo quase que inerente a nossa vida.

Planejar, no entanto, não significa apenas diagnosticar problemas; implica em conhecer a realidade existente e definir aquela desejada, pois, de nada adianta sabermos onde estamos se não sabemos para onde vamos. E a realidade desejada pode ser construída a partir daquela existente, valorizando, aperfeiçoando o que deu certo e retificando aquilo que necessita de mudanças.

No contexto da casa espírita, é muito importante que exista um planejamento que sirva como norteador das diferentes atividades que ela comporta, a fim de evitarmos o risco de estarmos todos trabalhando, até com relativa eficiência e boa vontade, mas sem estarmos buscando objetivos comuns. Quando não existem objetivos comuns, é bastante provável que alguém passe a considerar a sua tarefa como a mais relevante, a sua opinião como a mais abalizada, desconsiderando os esforços dos demais companheiros e criando, por vezes, uma competição dissimulada.

Por isso é que a sua construção exige como pré-requisito uma grande capacidade de ouvir, uma disposição para colocar os interesses coletivos acima dos individuais, permitindo que os postulados espíritas estejam norteando todo esse processo.

O planejamento, no entanto, não é uma panacéia para todos os males, mas quando estruturado de maneira a permitir a participação dos que irão operacionalizá-lo, passa a servir de bússola a orientar as iniciativas e ações dos que integram o grupo de trabalho.

Vale lembrar que, da mesma forma como procuramos continuamente avaliar as nossas intenções e atitudes, procurando aperfeiçoar-nos, este roteiro de trabalho necessita ser constantemente avaliado, algumas vezes atualizado e alterado, a fim de que não se torne uma ?camisa de força?. Exatamente como afirmou o Codificador, em Obras Póstumas, quando escreveu a respeito Do Programa das Crenças, item VIII:

?Este programa, porém, como a constituição orgânica, não pede nem deve acorrentar o futuro, sob pena de sucumbir, mais cedo ou mais tarde, esmagado pelo progresso. Criado pelo estado atual dos conhecimentos, deve modificar-se e completar-se à medida que novas observações venham demonstrar-lhe a insuficiência e os defeitos.?

Segundo Gandin (1995), existem alguns níveis de participação quando o assunto é planejamento. São eles:

1 ? COLABORAÇÃO ? Ocorre quando alguém ou um grupo convida outras pessoas, a fim de que estas ajudem a alcançar determinadas metas que foram traçadas por este alguém ou por este grupo.

2 ? DECISÃO ? Vai além da colaboração, permitindo que algumas decisões em aspectos menores sejam tomadas em conjunto. Estas decisões acontecem em torno de alternativas já previamente traçadas pelo grupo que planeja ou dirige.

3 ? CONSTRUÇÃO EM CONJUNTO ? Acontece quando, independente das diferenças existentes entre as pessoas e das funções ocupadas por elas dentro da instituição, todos se equivalem. Neste caso, não se planeja unicamente para alguém, mas, principalmente, com alguém. O que implica dizer que as alternativas e decisões são tomadas em conjunto.

Não pretendemos afirmar que todos devem ser planejadores no sentido estrito da palavra, mas em sentido lato, todos possuem algo a oferecer em termos dos valores que irão alicerçar o planejamento, das metas que serão traçadas, estabelecendo a forma como pretendem e podem participar.

Não se pode relegar para os espíritos a tarefa de elaborar o planejamento da casa espírita, muito embora eles possuam um planejamento para ela. É preciso que neste trabalho estejamos abertos para receber a inspiração deles, entendendo que os nossos esforços, quando sinceros, serão sempre secundados pelos esforços deles. Se é importante trabalharmos com os espíritos, não menos importante é trabalharmos com os espíritas, democratizando nossas atividades e relações.

Como desejarmos que algum companheiro assuma determinada tarefa com certa desenvoltura intelectual e moral, se não lhe permitimos traçar ao nosso lado os objetivos e as estratégias? Como esperar que alguém inexperiente, mas com boa vontade, se realize numa determinada atividade, se apenas delegamos responsabilidades, sem prestar-lhes a necessária assessoria? Se somente oferecemos oportunidade de trabalho em tarefas para as quais este alguém não possua qualquer inclinação? Por isso é que democratização das oportunidades deve estar atrelada com a socialização das responsabilidades, o que significa dizer que devemos assumir juntos os erros e os acertos, aprendendo e reaprendendo no cotidiano da casa espírita, sempre como irmãos.

A dificuldade de alguém deve sensibilizar todo o grupo no sentido de atendê-lo dentro das suas necessidades. O êxito de algum tarefeiro deve representar o de todos, pois na casa espírita somos chamados a cooperar e não a competir.

Não se planeja apenas para que os departamentos funcionem bem, a sopa seja distribuída de forma disciplinada, muitos passes sejam aplicados de acordo com o que preconiza a espiritualidade superior nem somente para que a evangelização infanto-juvenil cumpra o currículo adredemente traçado. Planejamos com pessoas, a fim de que todos os envolvidos neste planejamento possam oferecer o melhor que possuam, dentro de suas limitações.

Se o planejamento precisa ser flexível e deve ter algumas prioridades, não menos flexível e tolerante deve ser a nossa conduta, pois ninguém é profissional em atividades espíritas, muito embora nossa experiência profissional possa ser de grande proveito em determinadas tarefas.

A grande prioridade deve ser o esforço conjunto, no sentido do crescimento interpessoal, da gratificação interior, da boa sintonia com os espíritos amigos e no clima de entendimento e transparência regendo nossas relações.

Mais do que uma mera formalidade, a prática de planejar de forma participativa enseja-nos valiosas oportunidades de aprendermos uns com os outros, mudarmos algumas opiniões, aperfeiçoarmos conhecimentos e avaliarmos o nosso grau de maturidade espiritual.


Cezar Braga Said


(Retirado da Revista Estudos Espíritas ? Jan. e Fev./2000 ? Edições Léon Denis)

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